quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O livro casto

Passo meus dedos cuidadosos por tuas folhas amareladas e comidas por traças. Temo que elas se desfaçam ao mínimo toque. Um livro com idade para ser meu avó, quem diria! Trato-te como devo, então, com respeito. Gosto das coisas antigas, sujas de pó. Logo, as reflexões sobre quem foi teu dono, quem passou os olhos pelas tuas letras, quem tu fizeste chorar e 'quem' foram as vidas tu mudaste desde 1948 são inevitáveis. Um livro que "viveu" a ditadura e tantas outras coisas e épocas. Não pude deixar de me perguntar como tu paraste ali, naquele túmulo de tesouros, naquela biblioteca úmida e lúgubre.
Abri tua última página e eis então que me surpreendi. Eu fui a primeira pessoa a ti locar! Seria normal sentir pena de um livro? Não sei, nunca fui das mais normais. Decidi que te daria total atenção e me pus a ler. Mas logo vieram os espirros, a coceira na garganta e no rosto. "Coopere comigo, livrinho. Estou fazendo um favor a nós dois!", pensei. Atchim. Pelo visto não ficamos acertados. Cerrei-te zangada. 
Pobrezinho, talvez seu terrível estado seja culpa das páginas pouco lidas. Talvez se o tivessem locado antes, suas folhas estariam menos amarelas, menos sofridas, daí tu não me farias espirrar. É só a amargura normal dos idosos que se sentem abandonados.
Abri. Espirrei novamente, mas dessa vez não parei de ler. Subitamente senti uma necessidade de corromper as tuas páginas castas de marcas de gente. Peguei a caneta sem vacilar, apesar de estar contrariando as regras da biblioteca e, fiz um traço escuro abaixo de algumas das tuas letras. "Enfim, respira-se", tu dizias. E sim, enfim tu respiravas.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Amanda

Sua única certeza é que queria ensinar. Não sabia bem ao certo por que; não era das mais inteligentes, nem tinha grandes lições de vida ou de nada, mas queria ensinar. Amanda, no entanto, era tímida. Sentava-se sempre no fundo da sala e escondia seu rosto magro por trás de seus óculos grossos, era melhor assim. Era melhor não ser vista. Mas ela queria ensinar.
Pensou então em acabar com sua timidez, acostumando-se a apresentar trabalhos em sala. Preparou-se; decorou o assunto, ensaiou ao espelho, testou com seus irmãos e então, sentiu-se pronta.
Ao ser chamada, Amanda caminhou calmamente até a frente da sala, ajustou seus óculos com as mãos tremulas e respirou. Deparou-se então com seu pior pesadelo; a atenção e, não conseguiu mais ouvir suas palavras, seus pensamentos e nem o professor que a mandava iniciar. 
“Os olhos fazem tapar os ouvidos, os olhos fazem tapar os ouvidos, os olhos fazem tapar...” e como se não houvesse nada entre seu pensamento e sua língua ela gritou: OS OUVIDOS e correu. Correu até finalmente conseguir ouvir; seus passos eram histéricos no corredor vazio. Correu até deixar de ouvir os risos que vinham da sala.
Os anos passaram. Amanda trocou seus óculos por lentes e sua timidez pela sala de aula. Ensinava, todos os dias, em uma escola para cegos. Amanda era feliz.
 

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Tremor

As pessoas têm medo do cérebro, isso eu sempre soube. Ele nem precisa funcionar muito, às vezes só precisa pensar um pouco. Talvez isso explique a ojeriza; o medo causa nojo como se o culpado fosse ele. Tudo tem que ser cuidadosamente posto em medidas, mas o meu tudo sempre vaza. Não sei se é esta sequência Clarice-Caio, mas meu cérebro não é mais o vilão. Elas também temem sentimentos.
Tremo. Acho que está na hora dos remédios. Começo a temer-me também.

sábado, 10 de outubro de 2009

Os pratos

Sentou-se cansado, contemplando seu amor lavar as louças. Cuidadosamente ela as lavava. Dedicava minutos do seu dia com aquela terapia, para que os pratos brilhassem ou para que ela pudesse pensar sem ser incomodada. No começo não havia louças. Não havia alegria nos minutos que os separavam.
Ele sentia-se só. Sentia-se traído, excluído daquela nova relação que surgira. Mas não conseguia parar de olhá-la mesmo assim. Sua terapia era observar cada movimento; sentia saudade de quando ela se esforçava para fazê-lo brilhar. 
Ela amava além dele. Ele sabia que devia fazer o mesmo, mas não conseguia e ela era a culpada. Por segundos sentiu raiva; por que ela o deixou chegar a este ponto? Mas nunca conseguia manter outro sentimento, senão amor por ela. Então, entristeceu-se consigo.
Na manhã seguinte, Joana levantou-se. Havia notado, mas não dera importância à ausência de Carlos no lado direito da cama. Seguiu até a cozinha e então, como se fosse desmaiar, seu rosto empalidecera; todos os pratos, todos os seus pratos. Todos, quebrados! 
Com as mãos tremulas, segurou um guardanapo rabiscado: 
“Tu não vais mais precisar deles para te afastares de mim. Eu te amo e te deixo livre, espero um dia conseguir ser”.
- Meus pratos – disse ela chorando ao lembrar-se do dia que os ganhara; do dia do seu casamento.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

A bolha

Até o não-pensar pode ser triste, mas o corpo pesa a ponto de fazer esquecer o vazio na cabeça. Tenho mil quilos, por isso não quero levantar. Queria ser carregada pelo vento, talvez. Eu pelo menos tenho pernas, mas pensar isso me entristece mais. Há quem não tenha pernas, mas que saiba justamente o que fazer com elas; as minhas são um desperdício, não posso ser grata por isso. 
Há quem goste de lutar. Eu fico com o fracasso. Mas não pense que ignorar é fácil; isso requer meios extremos para esfriar-se. Sou meio quente por natureza.
O calor que queria ser frio, as pernas que não sabem ser usadas. Talvez eu só brinque de ignorar.


Song to the siren - Tim Buckley

sábado, 26 de setembro de 2009

Vida em plasma

Eu não estou lá na natureza selvagem
Não estou onde os beijos são roubados 
ou onde há os peixes grandes
Eu não estou no caminho dessas vidas curtas com jornadas longas;
Eu estou no conforto da mediocridade, sugando cada uma delas através da minha tv,
que ao mesmo tempo que me salva, me emplasma com seus choques tédios

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

L A M A

- Agora essa. 
- Lan...ma. Lama!
Sônia riu e pacientemente pronunciou a palavra à Patrícia.
- Alma. Vamos, tente de novo!
- Lama!
- Não, Patrícia! A palavra é ALMA, você está trocando as letras! Basta repetir comigo: ALMA!
- LAMA! - Gritou a menina.
Uma ruga se formou na testa da professora e ela resolveu deixar para lá, pegou blocos com outras palavras e Patrícia os leu com maestria.
"Estranho", pensou. Então decidiu falar com os pais de sua aluna.

- Você está querendo dizer que minha filha não sabe ler?!
- Não, não é nada disso, eu só digo que ela está com dificuldade em uma palavra, eu tentei várias vezes e...
- Você está chamando minha Patrícia de burra, é isso?
- Não, eu...
- Você está vendo isso, Guilherme? É tudo culpa sua! Eu falei para colocá-la naquela outra escola!
O homem tinha uma cara morta, lembrava um traço reto e nada mais; suas sobrancelhas, rugas da testa e boca, todas traços retos. Ele não se pronunciou.
O casal estava muito bem vestido e o rosto da mulher era o contrário do seu marido; traços não havia ali, só a pele assustadoramente esticada.
A professora pode imaginar suas vidas: O homem a trabalhar o dia todo com aquele rosto sem vida, sua esposa a fazer compras e plásticas e Patrícia em casa, com a babá.
- Você está me ouvindo? - Disse a mulher interrompendo os pensamentos de Sônia. - Provavelmente você que não está ensinando direito, professorinha! 
O casal se levantou e andou rumo à porta, Sônia ainda pode ouvir: "Uma professora lerda, era só o que me faltava! Não me surpreenderia se ela mesma não soubesse ler!"
Ainda parada na sala dos professores, Sônia pensou que não era tão estranho assim que Patrícia confundisse Alma com Lama. Deu um gole em seu café, olhou o relógio e foi ensinar sua próxima turma.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Um pouco do todo

Ele estava sentado em sua cadeira, pensando o quanto de si espalhou aos outros. Não se referia à suas confissões ou seu amor; sentia, na verdade, como se não houvesse mais um limite entre sua carne e o universo que o cercava.
Não era dos mais inteligentes ou bonitos, mas as pessoas estranhamente davam ouvidos a ele e tomavam algumas de suas idéias; alguns até de forma irritante. Ele não gostava, não queria mais Julios espalhados por ai como Josés. 
“Eu sou eu e somente eu posso ser”, pensava egoistamente enquanto tamborilava os dedos na cadeira, como seu pai costumava fazer.
“Como meu pai costumava fazer”, pensou.
Então, deu-se conta: Quanto dos outros havia em si?
Julio sentiu-se dissipar no ar. Espalhado como as moléculas de poeira. Mas o ar não era só seu e logo, misturou-se com as moléculas de Carlas, Brunas, Antonios, Josés.
“Então o que me torna eu? Meu corpo; nisso se resume minha individualidade?”   
Diante de seus olhos perdidos em algum canto, Julio viu seu corpo se formando novamente: olhos do pai, nariz da mãe...Sentiu seu coração bater forte e doloridamente, lembrou-se o quão bondosa era sua irmã e o quanto ele aprendera com ela.
“É isso” pensou ele “Eu sou um pouco do todo, criado por outros ou selecionado por mim e não há mais ninguém com esta combinação; sou único, mas não sou o único a combinar!”
Julio sentiu-se completo e desde então não se incomodou mais com pessoas que procuravam sentirem-se também.

sábado, 8 de agosto de 2009

Jardim de Lorenna

Vejo tudo que fui e vivi. As coisas passaram tão rápido quanto meus dedos passam pelo teclado, desesperados em busca de um desabafo, de algo que possa por para fora essa dor. Mas o que são palavras? Nunca consigo dizer tudo que sinto; isto seria impossível.
O som da gaita aumenta a saudade das coisas simples, das noites estreladas na varanda quando ainda nem havia eletricidade na fazenda; do frio das manhãs, do conforto, da segurança.
Sinto falta da pureza, da forma que meus pensamentos tomaram, das Lorennas antigas que ficaram para trás. Umas se afogaram no rio da maldade que inunda o corpo de todos nós. O mundo pôs os dentes afiados e famintos nas minhas antigas conhecidas, coitadas, não foram fortes o bastante.
Mas no meio do caminho encontrei flores que me aceitaram do jeito que eu passei a ser, e as colhi; umas murcharam, outras continuam em meu jardim. Mas sinto falta de todas, pois havia algo naquela época, algo que nunca voltará a ser. Um vigor, uma esperança e a inocência; pétala por pétala foram embora.
Os espinhos cresceram, corpo mudou, o sorriso, o olhar. Agora é tarde demais. Despedi-me de outras Lorennas, as minhas preferidas. Já não existia mais a menina que queria ser “a moreninha”, um vazio meio cheio de tudo tomou conta delas. E agora, se não gostarem das restantes? Nem eu gosto muito, confesso.
Tenho medo. Será que alguém que me conheceu acolá ainda gostaria agora de Lorenna?
Pergunto-me se minhas flores continuam comigo porque ainda se agradam de mim ou porque eu ainda as rego. E eu tento mantê-las; tento manter qualquer coisa que ainda cheire a pó.
Não estou certa se quero continuar me enterrando ou se devo cavar, procurando ossos que podem não mais se encaixar na minha mente. Quando foi que eu me tornei tão estranha a mim mesma?
Não posso voltar a pisar naquela terra, sorrir daquele jeito despretensioso ou ter os olhos vivos; os ossos não entram mais.  Tudo que me resta são lembranças das coisas que me construíram ou me destruíram; dos cheiros e sensações. É o que me resta da eternidade traiçoeira que foi para longe.
Sinto-me só, incompleta sem as outras. Sinto falta de mim. Sinto muito, em todos os sentidos. 

terça-feira, 28 de julho de 2009

Poema da sujeira

Há algo sujo naquela beleza
E pueril é a sujeira
do vestido branco da menina
No seio virginal o fogo também queima
Em cada reza, um pecado.
Não te deixes enganar pelo alvo
Pois cada alvo é alvo de imundices
E não te esqueças que a pombra branca carrega doenças
Pois é nos feixes de luz que enxergamos a poeira


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Escrevi após assistir Lavoura Arcaica, muito bom, recomendo!