Abri tua última página e eis então que me surpreendi. Eu fui a primeira pessoa a ti locar! Seria normal sentir pena de um livro? Não sei, nunca fui das mais normais. Decidi que te daria total atenção e me pus a ler. Mas logo vieram os espirros, a coceira na garganta e no rosto. "Coopere comigo, livrinho. Estou fazendo um favor a nós dois!", pensei. Atchim. Pelo visto não ficamos acertados. Cerrei-te zangada.
Pobrezinho, talvez seu terrível estado seja culpa das páginas pouco lidas. Talvez se o tivessem locado antes, suas folhas estariam menos amarelas, menos sofridas, daí tu não me farias espirrar. É só a amargura normal dos idosos que se sentem abandonados.
Abri. Espirrei novamente, mas dessa vez não parei de ler. Subitamente senti uma necessidade de corromper as tuas páginas castas de marcas de gente. Peguei a caneta sem vacilar, apesar de estar contrariando as regras da biblioteca e, fiz um traço escuro abaixo de algumas das tuas letras. "Enfim, respira-se", tu dizias. E sim, enfim tu respiravas.