domingo, 14 de agosto de 2011

Algumas coisas, nem o tempo cura. A ferida pode parar de sangrar, mas a cicatriz sempre vai ficar ali te lembrando um pouquinho da dor.
Tenho uma saudade que não passa, não importam os anos. Já me acostumei a sair de casa sem beijar a mão dele. Já me acostumei a não ser mais mimada ou assistir ao jornal violento que eu não gostava, mas ficava lá só pra ter um motivo pra me aninhar naquela barriga imensa. Também nunca mais ouvi os tangos tristes em tardes de domingo. Mas nunca me acostumei a me acostumar.
Vez por outra dói como se fizesse só um dia que ele se foi e, eu daria qualquer coisa, daria minha vida só pra ouvir aquela vez imponente mais uma vez. Seja fazendo as piadas bobas ou cantando as mesmas músicas que ele cantava pra mim desde que eu era um bebê, até perto dos meus 15. Faltava um mês pra festa; nós ensaiávamos a valsa. Eu daria qualquer coisa pra ter dançando aquela valsa.
Ele era um contador de histórias e tinha muitas pra contar, pois viveu como poucos. Me arrependo de não ter dado devida atenção a elas. Me vejo já mulher, completamente diferente da garotinha que ele abandonou sem querer. Eu queria que meu pai me conhecesse agora, entende? Eu queria mostrar pra ele que aprendi direitinho os princípios que ele me ensinou. Queria que ele visse o quanto fiquei parecida com ele, na "bravura" e no coração. Queria que ele soubesse que sempre me pergunto se estou merecendo o orgulho dele com minhas atitudes. Queria poder ouvir os conselhos que ele me daria e o que ele me falaria já com essa idade. Queria ter conversado sobre Direito com ele, sobre o comunismo, ou sobre uma besteira qualquer. Como eu queria ter conhecido mais meu pai. Como eu queria que ele me conhecesse!

Quando criança, eu costumava esperar ele voltar pra casa pendurada no portão e, quando o via dobrando a rua, pulava e corria pra abraçá-lo no meio do caminho. Com a cabeça encostada no peito dele, eu cheirava as angélicas; ele sempre andava com algumas no bolso porque lembravam o cheiro da mãe dele.
Decidi que vou plantar no meu jardim.

2 comentários:

Sem lenço e sem documento disse...

Ah Lorenna, quanto tempo não venho aqui. Não importa o tempo que passe, as histórias continuam cruzadas. Teu pai faleceu a pouco ?! O meu está com câncer. Tive vontade de chorar quando li teu post. Não sei o que vai ser estou tentando apertar laços frágeis que foram se soltando com os anos. Enfim, tem um texto que escrevi sobre ele mas acabei não postando, quem sabe tome coragem de reler e postar. Tenho medo de não dar tempo de resolver tudo que temos pendente. Enfim minha amiga, força nesse momento, me acalma acreditar que os que eu amo e se foram estão comigo de certa forma. Força, muito força.

Sem lenço e sem documento disse...

Lorenna,
Gosto quando entro e vejo que comentou, me deixa realmente mais alegre. Fico feliz que esteja voltando aos poucos.