Tudo certo, passei pelos portões, encontrei um conhecido e cumprimentei educadamente. "Senta aqui", "Não, é que eu tenho que ir... Olha, tu tá lendo Jack Kerouac!". "Tu gosta?". "Sim, sim, comecei com On the road e curti tanto que li outros. Sério, mas agora tenho que ir". Entrei no carro e fui sendo levada pelas ruas. Jaracati ou São Francisco? Vai Jaracati!
Sinal verde. Sinal vermelho. Carro lerdo na frente. 60 km/h, sem pressa, sem pressa. Foi um dia de decisões importantes pra mim e pra ele. Se tu tivesse escolhido sentar em outro banco do carro vermelho, que não o que desse direto para mim no cruzamento? Se o motorista decidisse por qualquer outra daquelas ruazinhas, todas parecidas, lá do centro? Se furássemos os sinais...? Até o Jack Kerouac que tu me apresentou, na mão do meu conhecido, teve seu papel. Escolhemos e fomos escolhidos. Tudo milimetricamente calculado pra que naquele cruzamento que durou segundos, nossos olhares perplexos se cruzassem.
É sempre assim, parece que contigo tudo há uma razão de ser. Já não me importa mais como as coisas terminaram. Não me importa se "tudo foi uma fantasia", se simplesmente "inventamos um amor". Nada disso mais me ocorre. Se tem uma coisa que aprendi com toda essa nossa história é que NADA é por acaso. Tu entrou na minha vida pra deixar tudo mais bonito. Tu entrou na minha vida para que eu ouvisse músicas românticas respirando pesado e para que eu sentisse o coração bater rápido só de ti olhar. Tu entrou na minha vida para que eu acreditasse em amor, destino e coisas boas. Pra tirar minha cabeça dos sofrimentos, das coisas feias do mundo, do vazio. Tu entrou e saiu. Foi embora. Mas tu regou meu coração antes de ir, mostrou que eu sou sim capaz de sentir, acreditar e amar. Mostrou que tudo tem um motivo pra acontecer. Até o nosso fim.
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